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O mito do texto curto na Internet

19 set

Peço licença aos amigos do Intermezzo, em especial ao autor de “O mito do texto curto”, André de Abreu, para reproduzir suas palavras sobre escrever  na Internet. Leitura quase obrigatória, fundamentalmente, para quem lida com o webjornalismo.

“Já passamos da primeira década de internet disseminada e ainda ouço de alunos e colegas a máxima: “Na internet, o texto tem que ser curto, não é?”. Não, não é.

Definindo

Desde os primórdios, o hiperlink permite, entre outras coisas, a fragmentação de qualquer conteúdo em pedaços, ou chunks, em inglês. Com isso, deixamos a cargo do usuário decidir o quanto ele irá se aprofundar em determinado assunto.

Essa é uma das principais vantagens do texto digital em relação ao analógico. No segundo, como há limitações de tempo e espaço, o jornalista diariamente imagina quem é o seu leitor e faz uma auto-seleção de quais termos merecem um desenvolvimento ou não. Por exemplo, um jornalista do Mais! – caderno do jornal Folha de S.Paulo sobre cultura – certamente se sente à vontade ao discorrer sobre Schopenhauer, pois imagina que a média dos seus leitores conhecerá o filósofo. Por outro lado, o repórter do jornal Extra, periódico popular do Rio de Janeiro, seria obrigado a fazer uso de um longo aposto para contextualizar o seu público-alvo sobre quem é o autor e o que ele fez de importante.

Pequenos preconceitos e grandes limitações

O jornalismo tradicional é formado por esses pequenos e praticamente inconscientes preconceitos. Na prática, nem todos os leitores do caderno Mais! são eruditos e nada garante que os do Extra não o são. Entretanto, pelas limitações do suporte, o jornalista é obrigado a desenhar em sua imaginação o público-alvo e moldar seu texto a ele.

Além disso, os suportes tradicionais são limitados por suas características. Eles não atendem plenamente nem o especialista e nem aquele que desconhece o assunto. Continuando com o exemplo do Schopenhauer, o jornalista pode fazer uso de recursos como o aposto ou o box para tornar o texto mais acessível. Correto? Errado. Na verdade, essas saídas soarão enfadonhas para o especialista e ineficaz para o leigo, já que elas não oferecem grandes aprofundamentos.

O hiperlink – assim como o hipertexto e a hipermídia – chega para dar um salto qualitativo em termos de redação. Pela primeira vez, podemos fazer um texto curto do qual se ramificam conexões que levarão a um aprofundamento. Dessa forma, um especialista pode se contentar com um nível mais superficial da informação enquanto o leigo, de acordo com o interesse, tem à disposição diversas conexões que o levam a conteúdos realmente detalhados.

Já pensou o que seria da internet como fonte de pesquisa se todos levassem a sério o mito do texto curto? Mudar a maneira como se aprendeu a escrever é difícil. Como começar a escrever de forma não-linear e em camadas depois de toda uma vida alfabetizado na linearidade. Tanto não é fácil que praticamente nenhum veículo faz uso do hipertexto de forma avançada. A maioria ainda escreve para a web como se escrevesse para um jornal e produz conteúdo em vídeo como se estivesse produzindo para a televisão. Em seus livros, MURRAY e SALAVERRÍA já debateram intensamente o fenômeno da subutilização dos recursos do meio digital. Por esse motivo, o texto não precisa ser, necessariamente, curto. O ideal é darmos condições aos usuários, por meio dos hiperlinks, para decidirem o quão curta ou extensa será a leitura de acordo com os interesses e repertórios de cada um.

Mas, afinal, de onde surgiu esse mito?

“A culpa é do Nielsen”

Em 1997, o especialista em usabilidade Jakob Nielsen (foto) publicou o artigo “How Users Read on the Web“. Nesse estudo, ele demonstra o quanto o texto curto, com destaques visuais e à base de marcadores tornam a leitura na internet mais eficaz.

Ele está certo. Um texto nesse formato tem mais chances de ser lido do que parágrafos e mais parágrafos dissertativos. Entretanto, não podemos nos esquecer de três pontos antes de repercutir o texto de Nilsen:

  • A análise feita por ele mediu aspectos fisiológicos do comportamento. Do ponto de vista do conforto, um texto de acordo com as características propostas realmente funciona melhor. Entretanto, o fator interesse não foi levado em conta. É esse fator que faz os leitores do Observatório da Imprensa escreverem para o site reclamando que alguns artigos ficaram curtos demais.
  • A pesquisa foi feita em universo bastante restrito e Nielsen deixa isso bem claro. Quem lê os prefácios dos livros dele percebe a preocupação em deixar claro que estamos falando de recomendações que devem ser analisadas e adaptadas dentro de um contexto particular, e não dogmas universais.
  • Há 12 anos, predominavam os monitores CRT que, notavelmente, tornavam a leitura diante da tela bem mais cansativa em relação aos atuais de LCD.

Entretanto, a leitura superficial desse artigo foi parar nos livros, que foi parar nas mãos dos professores que, até hoje, cuidam da perpetuação do mito do texto curto entre os jovens jornalistas. Aqueles mesmos que, após quatro anos, estarão nas redações digitais, se tornarão editores e passarão essa máxima equivocada adiante fomentando um ciclo que atrasa, e bastante, o desenvolvimento de uma narrativa jornalística que usufrua plenamente os recursos do ambiente digital.

(Andre de Abreu)

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Publicado por em 19/09/2009 em Internet, Jornalismo

 

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